domingo, 6 de maio de 2012

IDEOLOGIA E CINEMA: O CASO NORTE-AMERICANO

O filme tem um papel primordial de dar vida a um passado histórico, mostrando como a sociedade de uma época vê esse passado. Um discurso histórico é produzido pelo filme à medida que este tenta traduzir uma época com seu dicionário moderno. Como produto e instrumento ideológico, o filme se aproxima de um documento histórico, pois este é feito por um homem de carne e osso passível de erros, intenções e visões particulares sobre um fato histórico. A ideologia presente num filme ou num documento histórico, por sua vez, constrói verdades, o que faz parte das características da sociedade que o produz, detalhe que não deve ser desprezado na análise do historiador.
O cinema norte-americano se formou dentro de um projeto ideológico de uma nação que abandonava seu passado, mas também necessitava reconstruí-lo. Precisava de símbolos heróicos, idéias para que servissem de referência. Difícil foi ser tão perfeito quanto esses heróis idealizados.
A cinematografia norte-americana é uma rica fonte que ajuda a entender seus valores e como estes se reflete em sua história. A oportunidade de montar seu próprio cenário e escolher seu tipo de personagem, fez do cinema um meio profícuo de verdades multifacetadas, é nele que os mitos ganham vida e mostram ao mundo um padrão ainda não alcançado.
Os vários heróis norte-americanos são adorados pelo mundo a fora. Desde criança se aprende, através dos desenhos, a gostar da perfeição destes mitos. Suas cores e gestos são adorados e repetidos invariavelmente nas brincadeiras infantis. Com o tempo, essa referência se transporta para os games e filmes. Atreladas sempre ao consumismo essas imagens heróicas invadem nossas vidas e nos iludem com suas motivações fantasiosas.
Ao vender sua imagem de perfeição para o mundo e ao mesmo tempo esconder sua fragilidade, os Estados Unidos investem em propaganda e transmissão de modelos de vida aparentemente perfeitos. Ser sempre eficiente como seus heróis e atingir uma totalidade, conseguir um objetivo por mais dispendioso que seja, lançando sobre si uma responsabilidade sobreumana.
Um olhar crítico sobre o cinema norte-americana nos levam a refletir sobre os impactos de suas ações no mundo, entender seus interesses, ou seja, a constante necessidade de influenciar outras nações.

RESENHA: A FORMAÇÃO DAS ALMAS- JOSÉ MURILO DE CARVALHO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
HISTÓRIA DO BRASIL REPÚBLICA

ACADÊMICO: Ronaldo Brasil dos Santos
ORIENTADOR: Professor Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá





RESENHA: A FORMAÇÃO DAS ALMAS: O IMAGINÁRIO DA REPÚBLICA NO BRASIL

















São Cristóvão/SE,
26/04/2012


Não se pode negar a relevância do historiador José Murilo de Carvalho para a construção da História do Brasil. Primeiro historiador de profissão a ser membro da Academia Brasileira de Letras, autor de diversas obras significativas, algumas se tornaram verdadeiras bíblias para a historiografia brasileira como “Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi” e “A Formação das Almas: o imaginário da república no Brasil”. Este último é tema da presente análise. Carvalho nasceu em Anderlândia MG, é Bacharel em Sociologia e Política pela UFMG; mestre em ciências políticas pela Universidade de Stanford, Califórnia, 1969; Ph.D. em Ciência Política pela Universidade de Stanford, 1975; possui
especialização em Metodologia de Pesquisa pela Universidade de Michigan, 1967; é
Pós-Doutorado pelo Departamento de História da Universidade de Stanford, 1976-77 e é Pós-Doutorado pela Universidade de Londres, 1982;  Fez palestra em diversos países na Europa, África e América, recebeu vários prêmios.  Atualmente exercer docência como titular da UFRJ e trabalha com pesquisas no Brasil e no exterior.
Carvalho transita em seus estudos temas como cidadania, imaginário e República. Estes se personificam no livro “A Formação das almas: o imaginário da república”. A obra foi lançada um ano depois do aniversário do primeiro centenário da República. Assim, Carvalho procura discutir o significado da mesma, como o novo regime foi imposto para o povo e como se deu sua aceitação, já que o mesmo como disse Aristides Lobo viu a mudança de monarquia para República bestializados, ao menos nem se quer tinha noção do que estava se passando naquele momento, não se envolvia nos assuntos políticos, até porque era alijado desta esfera.
Porém era preciso dar suporte ideológico a tal acontecimento, a solução vista era forjar o imaginário popular e a ferramenta para tal usando-se abusivamente de símbolos, mitos, heróis e hinos, estes, incutidos na mente e na emoção das pessoas forjava-se o imaginário popular, unificando-os em um único propósito e em um único desejo, a redenção da República. A elite letrada travava um duelo ideológico para a implantação de um modelo ideal.  Eram três correntes ideológicas disputando o controle do que viria ser a república: o liberalismo americano, o jacobinismo francês e o positivismo. Dentro dessas correntes predominavam dois conceitos diferentes de liberdade. A liberdade da democracia direta clássica em que povo sai para a praça pública para deliberar sobre a política do Estado (defendida pelos Jacobinos); e a liberdade da democracia representativa com um líder eleito em que a população tem liberdade de propriedade, de religião e de opinião, liberdade individual (defendida pelos Positivistas e Liberalistas). O autor ressalta que maior importância deve ser dada a como estes modelos foram apropriados não somente pelas elites intelectuais mas por parte da população como se figuraram estes discursos.
Como discurso, as ideologias republicanas permaneciam abafadas no fechado circulo das elites educadas. Mas seja pelo próprio conteúdo do discurso, seja pelos elementos utópicos, eles acabavam por postular a saída do fechado e restrito mundos das elites, acabavam por defender cada uma, a sua maneira, o envolvimento popular na vida política. Esta era o caso da ideologia jacobina. Eles, inspiraram-se na Revolução Francesa. À época da proclamação da república, esta revolução era o exemplo mais poderoso da explosão popular na arena pública. Era também, de certo modo, o caso das positivistas ortodoxos. Embora em princípios, contrários a movimentos revolucionários, tinham a revolução de 1789 como marco na história da humanidade e sua visão de sociedade ideal era comunitária e incorporado. Em menor escala o modelo liberal poderia também exigir mudanças de ampliação da participação, porém em menor escala.
Como estas teorias densas chegariam ao espírito de um povo de maioria iletrado. Era preciso leituras simples, hinos, símbolos e personificar heróis. Tratava-se de uma batalha de titãs, onde o que se almejada era atingir o imaginário popular e recriá-lo dentro do ideal republicano, modelando condutas e visões de mundo. Esta é a tese da obra.
Em o livro Os Bestializados: o Rio de Janeiro e república que não foi José Murilo de carvalho permeia pelo mesmo tema. Aborda a participação das camadas inferiores da sociedade, no Rio de Janeiro, no período da Proclamação da República. Logo no início do livro, o autor cita o propagandista da República, Aristides Lobo, e o estudioso francês residente no Brasil, Louis Couty, com indagações a respeito da apatia do povo frente ao processo republicano. É a primeira vez, após a independência, que o país passa por um momento histórico de grande importância, discute-se a transição da monarquia para um estado republicano que pode colocar o próprio povo em igualdade, ao menos política, com as elites. Todavia, como o próprio titulo da obra sugere, o povo viu a mudança de regime bestializados, sem entender o que estava acontecendo, porém é interessante notar que o autor aponta para outra forma de participação popular, outras maneiras de reconhecimentos e jeitos de ser brasileiros, tais como carnaval e confrarias. Era assim que o povo dizia-se brasileiro e demonstrava sua apatia pelos assuntos políticos até porque eram alijados dos mesmos.
A herança ibérica deixada no Brasil foi de uma nação de muitos pobres e poucos ricos, índices alarmantes de analfabetismo, desgastes econômicos, preconceitos sociais, econômicos e étnicos, inexistência de limites entre privado e público e corrupção. É nesta esfera que Gilberto Freire (1987) aborda o conceito de estado patrimonialista. Carvalho aponta na obra em estudo o conceito de “estadania o qual converge pelo mesmo de Freire. Ele analisa que estado e cidadania se interceptam e se camuflam entre si, tornado-se, no Brasil, algo inseparável. Assim comenta:
...Bacharéis desempregados, militares insatisfeitos com os baixos salários e com os minguados orçamentos, operários do estado em busca de uma legislação social, migrantes urbanos de empregos, todos acabavam olhando para o estado como porto de salvação. A inserção de todos eles na política se dava mais pela porta do estado do que pela afirmação de um direito cidadão. Era uma inserção que se chamaria com maior precisão de estadania.   (CARVALHO, 1990, p.29)
               
                Além de todos estes problemas que nos foi dado de presente pela dinastia de Bragança o momento da proclamação não contou com uma boa recepção. O período era  delicada, visto que estava-se vivenciando um momento de crise. Assim nos diz Carvalho:

A febre especulativa atingiu de modo especial a capital do  país, centro dos acontecimentos que levaram a República. Em vez de agitação do terceiro estado a República brasileira nasceu no meio dos especuladores [...] não se podia nem falar na definição utilitarista do interesse público como a soma dos interesses individuais. Simplesmente não havia preocupação com o público. Predominava a mentalidade predatória, o espírito do capitalismo sem a ética protestante. (CARVALHO, 1990, p.30)  
           
Portanto, o “prato” principal servido pelos articuladores da proclamação da República foi exatamente este, onde o povo se era espoliado antes, naquele momento sofreu mais ainda os efeitos da corrupção e descaso para com seus interesses.   
Tem-se a sensação de que a obra mereceria um subtítulo no plural, uma vez que não se fala em o” imaginário da República, mas sobre vários embates dinâmicos para a construção de imaginários e seus respectivos símbolos. Nesse sentido, aliás, é fundamental no desenrolar do livro, que procura mostrar sempre as mediações e os conflitos existentes na criação e consolidação dos principais símbolos da república.

             O livro, mesmo sendo composto por alguns ensaios já publicados e de palestras realizados no Brasil, na França e nos Estados Unidos, ao lado de artigos inéditos, apresenta uma boa coerência interna, explorando muito bem o objeto propostos apresentando uma linguagem simples e fluente e não enfadonha. Os ensaios estão muito bem articulados entre si. Em entrevista, Carvalho diz que a história se aproxima mais da literatura do que da ciência, uma das razões pela opção da escrita fácil. O autor Inicia a análise pelos modelos políticos e filosóficos norteadores do positivismo, explorando tanto a aplicação prática destes no Brasil, como a adaptação sofrida neste processo.

            Pode-se citar como inovação neste livro a protagonizarão da história política pelo povo através dos mitos, imagens e representações populares que configurou a república daquela época. Outra inovação foi a farta documentação, como letras de músicas, charges, fotografias, cédulas e hinos, porém a que mais se fez presente foi a iconografia. Ele utilizou mais de cem, onde a mesmas dialogam com todo o texto.
             Apesar do brilhantismo, carvalho não saiu ileso. Os críticos acreditam que pela predileção que tinha pela monarquia, o autor não via com bons olhos o sistema republicano e essa visão se fez presente na obra.

            O livro possui 165 páginas e é dividido em seis capítulos. O primeiro Inicia analisando modelos políticos e filosóficos norteadores do positivismo, explorando tanto a aplicação prática destes no Brasil, como a adaptação sofrida neste processo. No segundo capítulo discute as diversas proclamações da República e o conseqüente impasse simbólico derivadas das lutas pela criação de um imaginário social entre as diferentes vertentes político-filosóficas externadas nas figuras simbólicas do Marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamim Constant e Quintino Bocaiúva.
Já no terceiro capítulo depois de abordar o imaginário do "fato" (a proclamação da República), Carvalho analisa a construção de um mito de origem da República brasileira – Tiradentes – e suas diversas apropriações por diferentes (e até mesmo antagônicos) grupos sociais.
No quarto capítulo aparece a tentativa, segundo o autor, frustrada da criação de uma simbologia para a própria República, capaz de aproximar Estado e Nação, República e Brasil, como por exemplo, a apropriação do modelo francês Marianne, muitas vezes travestido da musa comtiana Clotilde de Vaux.
O quinto capítulo aborda a criação dos símbolos formais, da bandeira ao hino nacional, exigidos para qualquer Estado, os quais acabaram por tornarem-se muito mais representativos da Nação brasileira do que do Estado, ou melhor, do regime republicano.
O sexto e ultimo encerra a discussão com a retomada das questões anteriores, principalmente a aplicação dos modelos filosóficos comtianos no Brasil, com a finalidade de promover uma reflexão sobre a construção de um imaginário da República capaz de “amalgamar” o Brasil como Nação, isto é: enquanto “comunidade de sentido” ou “comunidade imaginada”, numa expressão de Benedict Anderson.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 165 p.

RESENHA: HISTÓRIA DE SERGIPE REPÚBLIA (1889-200)- IBARÊ DANTAS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
TEMAS DE HISTÓRIA DE SERGIPE II


ACADÊMICO: Ronaldo Brasil dos Santos
PROFESSOR: Dr. Antônio Lindivaldo Sousa










RESENHA DA OBRA: HISTÓRIA DE SERGIPE REPÚBLICA (1889 – 2000)













 




São Cristóvão,
Maio de 2012


O cientista político José Ibarê Costa Dantas nasceu no município de Riachão do Dantas, em 1939. Formou-se na UFS em História e fez Mestrado em Ciências Políticas pela Unicamp. Na UFS ainda lecionou entre os anos de 1970 e 1994, seja na graduação ou pós-graduação. Foi bancário durante 13 anos. Hoje é autor de oito livros e referência para diversos autores, Ibarê é professor Emérito da Universidade Federal de Sergipe e recentemente presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGS) no biênio 2004/2005, além de integrar o Conselho Diretor da UFS e o Grupo de Debates Democráticos (GDD). É casado com a antropóloga, professora e pesquisadora Beatriz Góis Dantas, com a qual tem dois filho e dois netos.
Em sua obra Ibarê Costa Dantas se propõe a responder questionamentos diversos a respeito dos anos da República (1889 – 2000). Como os sergipanos produziram e distribuíram sua cultura nesses anos? Quais as mudanças ocorridas no Estado e na sociedade?
Esta síntese da História de Sergipe é fruto, sobretudo, de trabalhos já publicados nos últimos 35 anos, como A Tutela Militar em Sergipe 1964 – 1984: (partido e eleições num Estado autoritário), O Tenentismo em Sergipe (da Revolta de 1924 à Revolução de 1930), Coronelismo e Dominação, Os Partidos Políticos em Sergipe e Eleições em Sergipe (1985 – 2000). Em História de Sergipe República (1889 – 2000) o autor tem o propósito geral de entender a complexidade do processo histórico estadual, instigado por seu desejo incessante de investigar a história de seus conterrâneos.Sergipe, apesar de ser o menor Estado da federação, tem um território marcado por uma riqueza cultural e política, além de histórica. A presente obra, segundo o próprio Ibarê é destinada a apresentar um pouco dessa história aos estudantes do Ensino Médio e graduandos com o propósito de suprir a carência de uma obra mais geral da História de Sergipe.
No primeiro capítulo, intitulado “O Estado liberal-oligárquico e o domínio dos senhores do açúcar (1889 – 1930)” o autor afirma que a primeira República em Sergipe foi marcada pela construção dificultosa de uma democracia. Os primeiros anos de República foram tumultuados e marcados por instabilidade política, formaram-se arranjos oligárquicos que permitiram a continuidade dos governos, ao mesmo tempo em que impediram que liberalismo e democracia andassem juntos.
A competição entre os partidos quase não existia, além de pouca concorrência nas disputas eleitorais e ínfima participação da sociedade nas eleições. A estrutura política dominante se pautava na hegemonia de grupos elitizados. Mas, ao analisar-mos o contexto de outras regiões, percebemos que esse tipo de dominação política em Sergipe foi ameno, pois quase todos os governantes do período foram simpatizantes ou militantes do movimento republicano. No governo, os componentes dos grupos conservadores nem sempre fizeram sucessores no poder. Além disso, a partir de 1906 não vai haver figuras personalistas dominando a política local por muito tempo.
Nesses primeiro anos de República em Sergipe se nota o domínio das famílias dos senhores de engenho. Tal fator comprova o alto grau de conservadorismo existente na política sergipana e sua incapacidade de rupturas no campo da política. A democracia e a cidadania avançaram muito pouco. Aliado aos anseios de modernização a coluna prestes se projetou como uma alternativa de derrubada do regime essencialmente conservador.
Apesar de a economia açucareira ainda ser a base da exportação, há uma significativa diversificação da produção. A industrialização era uma realidade, água, encanada, luz elétrica, bondes, estradas, telefones, mercado, matadouro, o avanço do capitalismo envolvia a economia sergipana.
A sociedade sergipana se tornou mais complexa, embora ainda houvesse a manutenção dos privilégios das classes dominantes. As classes menos favorecidas acompanhavam um movimento que contagiada grande parte do Brasil: as greves operárias, com reivindicação por melhores condições de higiene e saúde. Eram criados jornais com diversas ideologias. Já as condições educacionais eram baixíssimas, segundo o Censo de 1890 a população de analfabetos era de 89%. Em 1920 essa percentual só melhora para 83%. Alguns governos atuaram de forma autoritária com a finalidade de coibir manifestações e críticas nos jornais.
No segundo capítulo, ao analisar o Estado intervencionista e o domínio em transição, Ibarê menciona a Revolução de 1930 como fator responsável pelo aparecimento de novas forças no campo político, mas que por outro lado manteve o poder do Estado atrapalhando a institucionalização da democracia.
Em uma primeira fase (1930/35) houve uma ampliação e reestruturação do poder administrativo ao lado do desgaste do poder das oligarquias coronelísticas. As sindicalizações ocorriam sob a fiscalização dos interventores. Foi sob este controle estatal que o voto passou e ser secreto e com a participação feminina. A partir de 1935 aumenta a polarização entre esquerda e direta, a repressão aumenta, culminando com o golpe de Vargas em 1937.
A próxima fase (Estado Novo) é marcada, sobretudo pela participação mais efetiva do Estado na tentativa de montar uma unidade nacional através da propaganda do governo federal amplamente apoiada pelos interventores. Nesse período há certo prejuízo a produção artística devido a muitas proibições, mas essa produção não deixou de existir, foi mais uma forma de resistência ao Estado autoritário.
No capítulo “O Estado populista e o domínio dos pecuaristas (1946/1964)” é tratado como a fase do domínio populista até então de maior experiência democratizante. A política ganhou maior campo para disputas, apesar de o PCB ser alvo de cassação. A UND e o PSD se revezavam no poder após dois mandatos consecutivos, seus governantes, progressivamente se tornavam mais sensíveis às questões sociais.
No campo econômico, aumentavam as distâncias entre nordeste e sudeste, pois o modelo agro-exportador perdia espaço para a industrial. As empresas têxteis sergipanas enfraqueceram diante da competição com outros Estados dominantes do setor monopolista do sudeste. Por outro lado, o comércio expandiu-se e a pecuária vivia seu auge. Apesar disso, a escolha do Estado não foi explorar essas potencialidades, atrelando a economia no setor terciário sob a mesma influência de dependência regional.
Entretanto, a sociedade tornava-se dinâmica. O sindicalismo se fortaleceu com gritos de reformas, as manifestações culturais aproveitavam-se da ausência do autoritarismo do período anterior e se mostravam profícuas, porém, o Estado não deixou de guiar essas transformações, atuando no ensino fundamental, criando instituições de nível superior e entidades culturais, além de subsidiar artistas e escritores, ao mesmo tempo em que crescia a preocupação com a questão social.
De acordo com o que acontecia em âmbito nacional, o projeto nacional e popular foi se fortalecendo envolvendo artistas e intelectuais na formação do Estado-Nação comprometidos com modificações significativas no campo da política. No avançar dos anos 60, o Estado se mostrava incapaz de atender as demandas populares, pois passava por crises econômicas que exigiam cada vez mais sacrifícios da população. As necessidades por mudanças aumentaram e a propriedade privada, o domínio dos meios de produção pelo capital estrangeiro, e o bem estar da elite financeira foram sendo questionados. Sem bases de sustentação, o governo federal passa a atender as reivindicações populares, só que o projeto de nação-popular foi tragado pela coalizão civil-militar a serviço dos interesses do capitalismo, interrompendo o processo democrático.
Em “O Estado autoritário e a ascensão dos empresários urbanos (1964/82)” Dantas fala sobre a marca autoritária do período ditatorial que excluiu a participação popular como medida de segurança em virtude do enclinamento do país ao socialismo. Mudanças antidemocráticas e anticonstitucionais foram tomadas como, por exemplo, eleições indiretas para governadores, o que enfraqueceu os partidos locais (UDN e PSD).
O Estado repressor exigiu inúmeros sacrifícios à nação, como, o atropelamento das leis instituídas, violação dos direitos civis e políticos, ou seja, o país foi levado a um retrocesso nunca antes visto.
 Dessa forma, os governos militares estimularam o conflito, a desordem na vida política, amedrontando a população, o que afastou a capacidade de contestação de camadas expressivas, alimentando uma forte cultura da subalternidade. A pesar disso, o país não deixou de se modernizar, a estrutura industrial sergipana se sobrepõe à agro-exportadora, principalmente, através da Petrobrás. A camada de empresários urbanos se fortalece, especialmente na construção civil, dotados de poder econômico começam a influenciar a política.
As classes subalternas estavam à margem desse processo, o que justifica as intenções de desenvolvimento “pelo alto”. Prova disso foi a permanência do elevado número de analfabetos, a alta concentração de renda na mão de poucos, entre outros. O avanço tecnológico e as relações de produção capitalista ampliaram-se na cidade e no campo, enfraquecendo a possibilidade de dominação individual sobre a produção. Em Aracaju, o número de universitários cresceu, o que repercutiu no ambiente sócio-cultural. No início dos anos 80 cresce a mobilização dos meios organizados, animando-se diante da expectativa de retorno da democracia.
No campo cultural, a partir de 1969, as produções são submetidas à censura. O Estado procurou implementar seu projeto cultural autoritário e burocrata em sintonia com a lógica do mercado, sendo financiada pra legitimar a nova ordem.

A UFS, os festivais de arte e cultura, as recuperações de monumentos históricos e os incentivos a produção artística formaram o legado mais expressivo desse período. (DANTAS, 2004, p.226)

No quinto capítulo Ibarê Dantas aborda aspecto do Estado liberal-democrático em construção no período de 1983 a 2000, onde a democracia se estabelece e o Estado liberal (Neoliberalismo) se fortalece, a sociedade ganha maior expressividade, sendo mais informada e participando mais ativamente da política. A redemocratização instigou a produção artística e acadêmica, gozando agora de liberdade de crítica. O mundo globalizado proporciona a adoção de costumes padronizados calcados na lógica de mercado.
Como conclusão, podem ser apontados alguns observações sobre a obra e o que ela significa para a História de Sergipe. Apesar de não se deter a uma análise aprofundada, a obra representa uma abertura de caminhos para produções mais completas e concisas, pois atualmente, como o próprio professor Ibarê mencionou em certa entrevista, há pouca divulgação da produção historiográfica sobre o Estado de Sergipe. Muitas obras importantíssimas que ajudariam nesse tipo de produção, como as da historiadora Maria Thetis Nunes necessitam de reedições.
É neste sentido que História de Sergipe República (1889 – 2000) é uma obra que merece ser consumida por um público não somente acadêmico, mas também que alunos do ensino médio possam ter contato com riquíssimas informações sobre seu Estado e a sua História.
Atualmente, ainda há uma obra historiográfica que aborde a História de Sergipe desde os primeiros habitantes indígenas até os dias atuais, há apenas fragmentos, o que pode levar a diversas incoerências interpretativas, principalmente quando se comparar a História local à História do Brasil. Sergipe, como qualquer outra região, teve e tem suas especificidades. Portanto, a presente obra de Ibarê Dantas significa este incentivo a produções não somente mais abrangentes como também reflexivas sobre a História do nosso Estado.

REFERÊNCIA
DANTAS, Ibarê. História de Sergipe República (1889 – 2000). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

RELATÓRIO SOBRE O SEMINÁRIO: ÍNDIOS EM SERGIPE E ÍNDIOS XOKÓ (HOJE)


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
TEMAS DE HISTÓRIA DE SERGIPE II







RELATÓRIO SOBRE O SEMINÁRIO: ÍNDIOS EM SERGIPE E ÍNDIOS XOKÓ (HOJE)



RONALDO BRASIL DOS SANTOS









São Cristóvão/SE,
Abril de 2012






Relatório sobre o seminário “índios em Sergipe e os índios Xokó hoje” apresentado a disciplina Temas de História de Sergipe II, sob a orientação do professor Dr. Antônio Lindivaldo Sousa.







1.      INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

            O seminário sobre “índios em Sergipe e os índios Xokó hoje” visou traçar um panorama da História dos índios no território sergipano, além dos desdobramentos conflituosos de sua relação com o homem europeu nos séculos de colonização e a luta pela terra desses povos que até os dias atuais vêm enfrentando dificuldades a respeito do reconhecimento de suas terras. O caso dos índios Xokó é bastante representativo desse processo, pois já tiveram suas terras tomadas diversas vezes por latifundiários e hoje são um símbolo de resistência, mantendo formada uma unidade de indivíduos identificados com a cultura indígena, que com muito esforço, hoje têm um território onde pode extrair sua subsistência e conservar suas tradições.

2.      RELATO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

2.1 PALESTRA DA ANTROPÓLOGA BEATRIZ GOIS DANTAS- ÍNDIOS EM SERGIPE

            Em sua palestra, Beatriz Gois Dantas, mostrou detalhes do seu estudo sobre os índios de Sergipe e como se deu o processo de ocupação das terras em meio a diversos conflitos, além da atuação das missões, que impunham aos índios a religião e o modo de vida europeus.
            O papel da missão e a sociedade colonial constituíram espaços de contradição, onde tentava-se reunir  grupos tribais diversos e convertê-los culturalmente através da fé católica. Segundo Beatriz, esses grupos se mostram presente no século XIX, sendo, inclusive, reconhecidos pelo Estado.
            Em seguida, Beatriz mostra um quadro da população indígena em Sergipe entre 1798 e 1829 mostrando um percentual pequeno da população indígena e um mapa de aldeias indígenas do século XIX nas regiões de Geru, Chapada, Água Azeda, Japaratuba, Pacatuba e São Pedro.
            Os estudos sobre a missão de São Pedro foi resultado de questionamentos sobre onde estariam esses aldeamentos do século XIX, já que na segunda metade do século XX não há essa notícias desses índios. Beatriz Gois se interessa em investigar cada um deles até chegar a Ilha de São Pedro, onde habitavam os índios Xokó e onde ocorreram as missões dos séculos anteriores, a localidade já havia sido fundada pelos índios Ararurus no século XVII e posteriormente entregue aos missionários Capuchinhos.
            Além da missão de São Pedro, missão de Pacatuba foi bastante significativa, sendo o maior agrupamento indígena do século XIX. A missão de Japaratuba dos índios Boimé e dos frades Carmelitas. A aldeia de Água Azeda dos índios Tupinambá e Boimé, localizados na atual cidade de São Cristóvão, esses índios eram utilizados para combater insurreições e manter a ordem. Havia a vila de índios de Tomar do Geru, fundada pelos jesuítas e desintegrada pelo Marquês de Pombal que após expulsar os jesuítas procurou miscigenar os índios, dando prêmio para o branco ou mestiço que casasse com um índio. Posteriormente esses índios migram para as matas da Chapada (vila de Cristinápoles).
            Os fatores apontados para o “desaparecimento” dos índios foram a Lei de Terras de 1850, onde houve incorporação das terras indígenas como patrimônio da nação; a mestiçagem foi o principal argumento do poder provincial para declarar a inexistência dos índios. A partir de então os índios começam a recorrer às leis e as armas para terem de volta seu reconhecimento.

2.2 PALESTRA DE PEDRO ABELARDO DE SANTANA- A CATEQUESE E A CIVILIZAÇÃO DOS ÍNDIOS NO IMPÉRIO

            Doutorando em História Social pela Universidade Federal da Bahia, Pedro Abelardo inicia sua fala abordando a importância de preservação dos documentos, fato que considera de suma importância, principalmente por ser um estudioso do período imperial brasileiro e vivenciar cotidianamente essa necessidade.
            Seu principal questionamento em sua tese é entender o porquê do “desaparecimento” dos índios na segunda metade do século XIX. Em suma, a catequese e a civilização dos índios significaram a vontade de integrar as minorias da população brasileira no projeto de nação, ou seja, melhorar a situação racial do Brasil e a melhor maneira de conseguir seria através da catequese.
Engajado nesse processo de civilização dos índios, se destaca a figura de José Bonifácio desde 1820, que se envolve em vários empreendimentos, como o retorno da catequese no século XIX, já que no século anterior os jesuítas haviam sido expulsos, dessa vez cabia tal tarefa às diversas ordem religiosas então existentes no Brasil.
As alternativas encontradas pelo poder imperial para resolver a questão dos índios era a civilização ou o extermínio. Uma vez civilizados, essa minoria da população ocuparia terras então despovoada no território brasileiro, trabalhando como agricultores e comerciantes. Dessa forma, segundo Abelardo, a civilização no império foi diferente dos primeiros séculos de colonização, onde a catequese se resumia apenas à conversão dos índios ao catolicismo. Essa nova civilização se refere a intenção de povoar o império e fazer com que as leis ajam também sobre os índios.
Para Abelardo a lei de terras provou que o projeto de civilização dos índios não traria benefícios para estes, já que ter terras significava a obtenção de direitos políticos e civis, pois estes eram conseguidos de acordo com a riqueza da pessoa. Como as terras dos índios foram consideradas do Estado, os mesmos ficaram a margem desses direitos, assim como os escravos recém-libertos.
Outro grande motivo apontado por Abelardo a respeito da proliferação do discurso da não existência dos índios no final do século XIX e sua reprodução até os dias atuais é a assimilação da idéia de que se não existe aldeamentos, não existe mais índios. Na verdade, o desaparecimento de aldeamentos não significa a inexistência dos índios. O caso dos Xokó é um exemplo de comunidade reconhecida após muita luta, pois foram expulsos e tiveram seu aldeamento desintegrado, mas que conseguirem resistir até conseguir de volta seu reconhecimento no final do século XX. Porém, pode haver muitas outras comunidades que merecem reconhecimento, mas que ainda não conseguiram formar um grupo populacional significativo devido à mestiçagem.

2.3 PALESTA DO LICENCIADO EM HISTÓRIA WHITNEY FERNANDES- AS ATITUDES DOS ÍNDIOS DE PACATUBA DIANTE DA USURPAÇÃO DE SUAS TERRAS.
           
            A pesquisa baseou-se em documentos do IHGS (relatórios de presidente e artigos do padre Aurélio), como também documentos do arquivo judiciário. O objetivo do trabalho é analisar a reação dos índios de Pacatuba diante da apropriação e usurpação de suas terras.
            Quando o plantio de cana de açúcar começa a expandir, as terras dos índios de Pacatuba são desapropriadas para o cultivo de tal produto. Todavia, é notório frisar que os índios já viam sendo vitimas de violência a longa data, ou seja, desde as doações de sesmarias, porém foi no século XIX que tais moléstias intensificaram-se.
 Para esta empreitada uma fazenda e um sítio localizados em Pacatuba expandiram-se. O sítio tornou-se o engenho Anhumas pertencente à família Martins, que era parte da nobreza de Vila Nova. A família era composta pelo capitão mor das ordenações de Vila Nova, Francisco Martins da Cruz, dono do engenho; seus filhos, o sargento mor José Guilherme da Silva, presidente e tesoureiro da comissão financeira da mesma vila, além do capitão das ordenações Antônio José da Silva, juiz de paz da mesma vila.
 Os índios reagiam de duas formas que o palestrante as qualificam como:  ações ativas e ações passivas. Na primeira, pode-se citar: arrombamento das casas, matança de gado, destruição de lavouras, agressões, desobediência, descumprimentos das ordens, falta de respeito (insultos) e entre outros. Já na segunda, consta de requerimento enviado ao imperador do Brasil notificando possíveis problemas entre os nativos e a família Martins. 
                         

2.4 PALESATA DE AVELAR ARAÚJO DOS SANTOS- O MOVIMENTO INDIGINA E A ATUAÇÃO DE SUAS PAUTAS DE LUTA

            O palestrante dividiu sua apresentação em: panorama atual da população indígena brasileira e seus territórios; histórico das resistências indígena; o processo de organização do movimento indígena e considerações finais.
Avelar analisa a relação entre demografia e território sobre a vertente indígena.  Para isso, ele utilizou dados do IBGE, FUNAI, FUNASA e do Instituto Sócio Ambiental. Pode-se observar que dos 225 povos indígenas que falam cerca de 180 línguas em uma população de 820 mil pessoas, houve um crescimento dentro de um espaço de tempo de 20 anos de 150%. Este resultou em transformações dentro da conjuntura indígena, pois surgiram outros povos que se autodenominam indígenas.
No último resultado do IBGE, obteve-se que da população brasileira, 0,4% é indígena, e desta, uma parcela considerável vive no meio urbano. Este dado desmistifica a relação do índio com o campo, ou seja, o índio também vive nas cidades e o que distingue é sua identidade e seu auto-reconhecimento como tal.
Outro dado analisado pelo palestrante foi o que seria território indígena. Observa que do território brasileiro, somente 2% pertence ao índio, todavia muitas deles estão ainda em processo de reconhecimento oficial. Na constituição de 1988 projetou-se que em cinco anos seria resolvido a problemática territorial indígena. Hoje, se sabe que é uma questão delicada e praticamente vivemos um retrocesso neste sentido, haja vista a questão fundiária. O palestrante coloca que o problema intensificou com a lei de terras de 1850.
Atualmente, 23% da população indígena do Brasil se encontra no nordeste. Esta região possui trinta etnias e quarenta e três territórios indígenas. Todos distribuídos ao longo da região. Percebe-se que assim como em todo o Brasil, o nordeste passa pela mesma problemática do reconhecimento e da distribuição de terras indígenas. Há uma idéia que “existe muita terra para pouco índio”, porém carece observar que a terra indígena produz muito. O que falta é enxergar melhor este povo que foi massacrado ao longo de toda a história brasileira.
Avelar apresenta um panorama geral sobre a história da resistência indígena. Ela coloca que o índio não se mostrou passivo diante da colonização européia, resistindo de várias formas, organizando-se em guerras, a exemplo da confederação dos tamoios e as guerras guaraníticas, como também atacando as vilas e as fazendas. Estes caracterizados por atos pontuais, haja vista a disposição geográfica dos núcleos de povoamento. Ele aponta que a guerra justa também foi uma forma encontrada pelos índios para se manterem vivos.
Outra forma de resistência indígena foi à inclusão de elementos indígenas na interpretação da leitura eclesiástica. A principio, os padres jesuítas acharam interessante, porém ao perceber que estavam deturpando o catolicismo, os missionários agiram de modo não cordial obtendo resposta também não gentil dos índios.

3.      CONCLUSÃO
O presente seminário atuou como o esclarecedor de muitas questões obscuras sobre a temática indígena em Sergipe, funcionando como instigador de estudos que possam investigar e descobrir muitas lacunas existentes em nossa historiografia sobre os índios. Dessa forma é importante que tantos outros eventos com esse tipo de abordagem sejam promovidos e incentivados, proporcionando ao acadêmico uma formação mais sólida e consciente, entendendo a importância da História local.

RELATÓRIO DE VISITA TÉCNICA A GARARU E PORTO DA FOLHA/SE NO CICLO DE ESTUDOS “O SERTÃO TEM HISTÓRIAS”


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
TEMAS DE HISTÓRIA DE SERGIPE II





RELATÓRIO DE VISITA TÉCNICA A GARARU E PORTO DA FOLHA/SE NO CICLO DE ESTUDOS “O SERTÃO TEM HISTÓRIAS”




RONALDO BRASIL DOS SANTOS






São Cristóvão/SE,
Abril de 2012








Relatório sobre visita técnica ao sertão sergipano no ciclo de estudos “O Sertão tem Histórias” apresentado a disciplina Temas de História de Sergipe II, sob a orientação do professor Dr. Antônio Lindivaldo Sousa.




  


1.      INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

Visando a formação de um profissional mais consciente e interado com a História local, as atividades desenvolvidas foram de suma importância, pois serviu de vivência prática necessárias à formação do profissional de História. Estando tão perto de nós, às vezes parece inacreditável que exista no sertão tantos acontecimentos que ajudam a entender a História de Sergipe. Mas com a visita, entende-se que é fato. O sertão sergipano mostra como se desenvolveu nos primeiros séculos de colonização a sociedade do couro, diferente de muitas regiões do Brasil, as quais se destacaram na produção em larga escala do açúcar. Mas como essa sociedade se dinamizou e conseguiu se sustentar? Não só do açúcar viveu o homem sergipano, a criação de gado foi fundamental para a sobrevivência da população de muitas vilas locais e regiões afastadas.

2.      RELATO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

2.1 VISITA TÉCNICA GUIADA A IGREJA DE GARARU E AULA PÚBLICA DO PROFESSOR DR. ANTÔNIO LINDIVALDO SOUZA- dia 14/04/2012 (sábado pela manhã)
A visita técnica guiada à igreja de Gararu foi o primeiro holl de percepções que se pôde ter sobre a História do município.
A igreja de Gararu, datada de 1910, fica às margens do Rio São Francisco. No seu interior observou-se a disposições de imagens que simbolizam a forte presença do catolicismo do Vaticano I (catolicismo tradicional), além do seu alto nível de preservação, com imagens representativas da religiosidade local, como o Bom Jesus dos Navegantes, o Cristo morto, entre outras.
2.2 VISITA TÉCNICA GUIADA AO CURRAU DAS PEDRAS EM GARARU- dia 14/04/2012 (sábado à tarde)
A poucos quilômetros da igreja de Gararu e próximo às margens do rio São Francisco fica a fazenda Sr. Pedro, onde há imensas cercas de pedras que, durante muito tempo, fora feita com a maestria do Sr. Brasiliano, amigo de seu Pedro.
As cercas da fazenda de seu Pedro são interessantes não somente pela técnica utilizada, pois as pedras ficam bem encaixadas umas sobre as outras, mas pela história que essas construções possuem e sua importância para a sobrevivência da população, sobretudo, relacionadas à produção de arroz na região.
O principal objetivo das cercas de pedras era não permitir que o gado avançasse nas plantações de arroz, muito presentes na região até a década de 1980, quando a hidrelétrica de Xingó represou a água do rio, fazendo com que fossem extintas as enchentes anuais do São Francisco. Essas construções foram possibilitadas pela conveniência da abundância de pedras na região, o que eximiu, de certa forma, o desmatamento para a construção de cercas de madeira.
Era com a fertilidade advinda das águas do rio São Francisco que a população local produzia sua subsistência e em maior escala para outras regiões. Além do arroz, o feijão, milho, algodão e etc. Hoje, segundo seu Pedro, a vida se tornou mais difícil, pois houve a ampliação de áreas secas e consequentemente a obrigatoriedade de consumir o arroz industrializado, produto base na alimentação, além de se tornar mais difícil criar o gado, elemento importante na alimentação e que também se viu atrelado a mercantilização da região, como a produção de couro, sobretudo no século XIX. De acordo com seu Pedro a alimentação do gado hoje é a palma, rolão (palha de milho seca com a espiga e picada) e não mais a palha do arroz.
A prática da pecuária extensiva é a marca da região, além da criação de caprinos e ovinos, mais resistentes a seca, tendo sua criação substituído os suínos, estes por necessitarem de um solo mais úmido.
No aspecto cultural seu Pedro destaca a Festa do Cruzeiro da Missão de Gararu comemorada no dia 10 de maio e por muito tempo sob cortejos e procissões, além das festas, destacando suas mudanças como, por exemplo, hoje se resumindo somente à missa.

2.3 VISITA TÉCNICA GUIADA À IGREJA DE PORTO DA FOLHA E AULA PÚBLICA DO PROFESSOR DR. ANTÔNIO LINDIVALDO SOUZA- dia 14/04/2012 (sábado à tarde)
      
A igreja de Porto da Folha (1861) representa o Vaticano II (Teologia da Libertação). Nela podemos observar diferenças bastantes significativas comparadas á igreja de Gararu. Porém, o que mais chamou a atenção foi o altar pintado com imagens do cotidiano dos moradores, destacando a figura do vaqueiro, do lavrador, da costureira (bordadeira), a professora, o plantio de arroz, a pesca e o comércio. Tudo isso com a figura central do Cristo e de uma pomba, símbolo da paz.
            A representação desse altar bastante peculiar conta a história do município destacando o homem comum, lembrando o período áureo do cultivo do arroz e mostra a cultura cotidiana das pessoas. Não importa se alguém está de costa para o Cristo (algo inadmissível para o catolicismo tradicional), mas que Deus, a natureza e o homem fazem parte de um conjunto harmônico.
            O altar foi pintado em 1970 por um frei da região. Em pleno auge do Regime Militar, fica evidente ser o altar representativo do posicionamento da igreja no momento com relação à ditadura. Séria então possível imaginar um altar desse tipo ser tachado de comunista ou subversivo, já que vivíamos um período ideologicamente conturbado.

2.4 VISITA TÉCNICA À ILHA DO OURO EM PORTO DA FOLHA E CONFERÊNCIA “O SERTÃO TEM HISTÓRIAS” COM O PROFESSOR DR. ANTÔNIO LINDIVALDO SOUZA E ANTÔNIO CARLOS DO ARACAJU- dia 14/04/2012 (sábado à noite)

            Às margens do Rio São Francisco foi realizada a aula pública “O Sertão tem Histórias”. Através das explanações do professor Lindivaldo podemos perceber a importâncias do sertão para a História de Sergipe. Baseando-se na tese da dissertação do professor Dr. Francisco Colos Teixeira da Silva da Universidade Federal Fluminense que escreveu sobre “Camponeses e criadores na fronteira social da miséria”, o professor situou-se no contexto da história da região a importância de se conhecer outras histórias e não apenas a história celebrativa dos “grandes homens” ou “heróis” da História, mas entender a papel de outros atores da História, como índios, negros e mulheres. Muitos elementos que marcam o processo de colonização de Sergipe estão presente na região, por exemplo, a criação de gado, fortemente significativa antes e durante o auge da produção de açúcar no século XIX. Assim como o processo de expulsão dos índios e da população pobre para o sertão do Estado com a mercantilização da economia, principalmente no século XIX. E, por fim a História do catolicismo na região.
            As formas de acesso a terra no sertão a partir da lei de terras de 1850 e com o morgado (somente o filho primogênito recebe as terras do pai)  passou a ser bem restrita, ao mesmo tempo em que a terra era o principal meio de sobrevivência de ascensão social. Com essa lei surge a necessidade de demarcação das terras em meio a tantas terras devolutas que passaram a pertencer ao Estado, ou seja, para adquirir terras o proprietário teria que comprá-las. Esse fator contribuiu para exclusão de quem não tinha condições de comprar terras, inclusive perdendo as suas para latifundiários que as adquiriam em cartório. Esse foi o caso dos índios Xokó, que perdem o direito sobre suas terras após o decreto provincial que não os consideravam mais índios. A partir de então a população dos Xokó inicia uma luta cansativa para reconquistar esse direito.
            Porto da Folha, durante muito tempo exerceu forte influência sobre Gararu, esta, antes sendo anexada a Porto da Folha com o nome de Currau de Pedras, já atual a cidade de Porto da Folha chama-se Ilha de São Pedro. No século XX, Porto da Folha se destaca na produção de couro (sola). Das famílias de latifundiários dominam a região: os Feitosa e os Brito. Essas famílias exportam além da sola, o ouro branco, algodão e, num certo momento, o porco. É no século XX que ocorre um significativo desenvolvimento da região quando são construídas estradas para o escoamento da produção.
            Com a produção em larga escala a população pobre é empurrada para o semi-árido, sobretudo, por conta de cobiça das áreas mais férteis (ás margens do São Francisco) pelos grandes proprietários de terras. Devido a essa expropriação, Porto da Folha sofreu um acentuado declínio populacional, quadro que só vai ser revertido com a lógica do ¼, ou seja, de cada 10 cabeças de gado 1 ficaria para o vaqueiro, incentivando-o a permanecer na terra.
Outro ponto importante para entender a sociedade do couro do sertão sergipano são suas condições de subsistência numa sociedade com altas taxas de natalidade e mortalidade, fator que favorece atuação do assistencialismo da igreja católica.
E o papel do negro nesta sociedade? A escravidão no sertão foi propiciada, sobretudo, com a chegada de negros fugidos do Vale da Cotinguiba. Dados estatísticos evidenciam que, na primeira metade do século XIX, existiam 45% de negros na população do sertão o que logo diminui para 10%, devido a mortes por doenças e migração para áreas do cultivo de café. No sertão, esses negros foram criadores, produtores de alimentos e destinados a serviços domésticos.
A situação do índio é importante para entender o jogo de interesses dos latifundiários sobre a propriedade da terra na região. Inúmeros conflitos e mortes foram travados entre os Xokó e pistoleiros a serviço das elites locais. Além de servirem de mão-de-obra escrava foram obrigados a cederem suas terras e terem seus aldeamentos destruídos para dar lugar a mercantilização dessas terras.
Através das explanações de Antônio Carlos do Aracaju evidenciaram-se, além de curiosidades sobre os currais de pedra e a produção de arroz, alguns aspectos geográficos da região, mais especificamente sobre a Ilha do Ouro que deixou de ser ilha com a mudança curso do riacho Capivara na região de salitre. É nessa área que vai Haver um imenso currau de pedra que separava o gado da plantação de arroz quando o rio São Francisco transbordava.

2.5 VISITA TÉCNICA GUIADA À ALDEIA DOS ÍNDIOS XOKÓ E PALESTRA DO EX-CACIQUE APOLÔNIO XOKÓ- dia 15/04/2012 (sábado à tarde)

            A visita a aldeia dos índios Xokó foi bastante proveitosa, o que contribuiu positivamente para o entendimento da história de luta dos índios para preservarem sua cultura e terem algum direito sobre suas terras.
            Desde a chegada dos europeus ao Brasil no século XVI que se iniciou o processo de aculturação dos índios e de inserção destes na sociedade que se construía.
            A história dos índios Xokó representa o desenrolar destes séculos de conflitos entre índio e homem “civilizado”.
De acordo com as explanações do ex-cacique Apolônio, os Xokó se estabeleceram na Ilha de São Pedro, às margens do Rio São Francisco no Município de Porto da Folha no ano de 1979, vindos expulsos de uma região próxima, chamada Caiçara. Essa região, segundo Apolônio, fora demarcada no ano de 1859 como terra indígena pelo imperador D. Pedro II. No século XX essa demarcação foi ignorada pelos grandes proprietários de terras da região que realizavam verdadeiras caçadas a fim de exterminar a comunidade e se apropriarem de suas terras.
Ainda segundo Apolônio, no mesmo ano de 1979 a justiça local expede um mandado de despejo dos 129 índios que residiam na ilha a pedido do latifundiário Carlos Aires de Brito. Seguido de resistência dos índios, do apoio de D. José de Castro, do Frei Enoque e dos estudantes e professores da Universidade Federal de Sergipe foi finalmente encaminhada a permanência dos índios. Ocorre um processo de legitimação das terras indígenas finalizado com uma nova demarcação em 1988 através da FUNAI. O Estado compra as terras e devolve aos índios. Nesse processo foi constituída a Comissão Pro-índio e elaborado um relatório pela antropóloga Beatriz Góis Dantas que foi muito importante na comprovação da legalidade da posse.
Hoje, os Xokó se mostram vitoriosos por terem conseguido o direito de permanecerem em suas terras e agradecidos a todos que ajudaram, especialmente a Universidade Federal de Sergipe. São cerca de 5 mil pessoas que atualmente habitam na comunidade, com relativa auto subsistência, com governo e forma de organização social próprias.
Os conflitos entre os índios Xokó o os grandes proprietários de terras, especificamente os Brito e os Pacheco, foram causados pelo processo de mercantilização da produção no sertão. Para expandir as fazendas de gado para a venda em massa de couro e outros produtos, esses latifundiários tentavam a todo custo se apropriarem das melhores terras e a Ilha de São Pedro demonstra extrema fertilidade em meio a seca do sertão, propiciada pela proximidade com o Rio São Francisco. Logo ao se estabelecerem, os Xokó foram proibidos, inclusive, de cultivar arroz e pescar, ou seja, os latifundiários tinham interesses nítidos de fazer desaparecer a comunidade e de se apropriarem de suas terras, em grande parte muito férteis.
Outro fator interessante observador na visita foi o sincretismo entre a cultura indígena e do homem branco. Uma igreja católica numa aldeia de índios mostra que o índio de hoje e bem diferente do que viveu no século XVI, assim como qualquer outro povo. A igreja e bem conservada e cuidada, nela são praticados os rituais da comunidade e louvores ao deus Tupã em meio a imagens de santos e ao altar extremamente católico.

3.      CONCLUSÃO

A visita técnica realizada como parte da metodologia do professor Dr. Antônio Lindivaldo Sousa na disciplina Temas de História de Sergipe II foi bastante profícuo, pois instigou a produção acadêmica sobre o sertão sergipano, ainda muito insipiente e carente de novas descobertas, além de agregar à formação do professor de História o entendimento da História de Sergipe em um contexto mais amplo do que é transmitido atualmente, de forma ingênua, em alguns meios de informação. É preciso que o professor da educação básica também transmita essa História para seus alunos, construindo o conhecimento a partir de uma realidade que tenha a ver com eles.


ANEXO

“Nós povos indígenas, ao longo desses anos, continuamos construindo um mundo com maturidade, sabedoria e, acima de tudo, com persistência, determinação e convicção. Sabemos que a dor nos machuca, mas, também nos ensina a viver. Este chão que o povo do mundo “civilizado” pisa são cinzas e o sangue do nosso povo quando tivemos que enfrentar os primeiro invasores que aqui chegaram a mais de 500 anos atrás, trazendo em uma mão a cruz e em outra a espada, destruíram parte da nossa cultura, nosso território, a caça, o peixe, nossos rios , lagos, riachos. Uma coisa eu digo não conseguiram tirar do índio o que é ser índio. Portanto reafirmo meu compromisso em defesa dos direitos sagrados e constitucionais do meu povo.”
Apolônio Xokó
EX- Cacique